Imagine pedalar exatamente sobre as mesmas veredas onde, há quase 300 anos, milhares de mulas transportavam a economia colonial brasileira. Na Rota dos Tropeiros, o cicloturismo transcende o lazer — cada quilômetro percorrido revela uma camada da história territorial, desde os atalhos estratégicos de Cristóvão Pereira de Abreu até os povoados que surgiram nos antigos pousos das tropas. Aqui, a bicicleta torna-se veículo de memória viva.

Ciclistas e tropeiros a cavalo compartilham estrada de terra na Rota dos Tropeiros, RS, em meio a uma paisagem rural verdejante.
Ciclistas cruzam tropeiros a cavalo e carroça na Rota dos Tropeiros, Rio Grande do Sul, integrando cicloturismo regenerativo e herança tropeira. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

A jornada que atravessa 51 municípios do Rio Grande do Sul até São Paulo não é apenas um desafio. Trata-se da reativação de um ativo nacional. Hoje, a proposta legislativa contempla esses 51 municípios, articulando um corredor contínuo de aproximadamente 2.200 km de rotas históricas mapeadas e articuladas pela Lobi Ciclotur desde 2016. O traçado original, consolidado na década de 1730, serviu como espinha dorsal que integrou o Sul ao restante do Brasil. O transporte de muares transformou-se na primeira grande rede logística terrestre do país, definindo fronteiras e culturas.

Engenharia do Século XVIII: A Base para o Cicloturismo Autoguiado na Rota dos Tropeiros

Para entender a relevância deste percurso, é preciso observar a figura de Cristóvão Pereira de Abreu. Embora frequentemente chamado de desbravador, sua função técnica foi a de consolidador operacional. Ele utilizou o conhecimento territorial acumulado por povos originários e jesuítas para estabelecer caminhos que suportassem o tráfego pesado de milhares de animais.

Sua expedição entre 1731 e 1733 não apenas provou a viabilidade do trajeto, mas também estabeleceu variantes fundamentais como o Atalho de Rolante. Ao percorrer esses trechos hoje, o cicloturista navega por uma topografia selecionada pela precisão militar e comercial do século XVIII. Cada subida e pouso carrega uma lógica logística da época — transformando o pedal pelas veredas históricas em aula viva de geografia colonial.

Retrato imaginado de Cristóvão Pereira de Abreu em traje do século XVIII, renderizado por Ivan Mendes para o artigo atual com base na imagem do Jornal Cruzeiro do Sul (2004), Arquivo Municipal de Ponte de Lima.
Renderização atual de Cristóvão Pereira de Abreu, baseada na imagem do Jornal Cruzeiro do Sul (2004), Arquivo Municipal de Ponte de Lima. Imagem renderizada por Ivan Mendes © Lobi Ciclotur.

O Atalho de Rolante: Estratégia e Topografia

O Atalho de Rolante reduziu em aproximadamente 150 km a distância entre Viamão e Lages ao cortar diretamente a Serra Geral, evitando o contorno litorâneo. Documentado nas Notícias Práticas de 1738 ao jesuíta Diogo Soares, o desvio estratégico tornou-se a espinha dorsal do corredor Viamão–Lages–Curitiba–Sorocaba.

Apesar do desenvolvimento econômico, é fundamental notar que essa expansão teve um custo humano. A historiografia crítica aponta para a captura de indígenas e conflitos territoriais intensos. Um exemplo é o caso da menina Paula, uma criança indígena raptada em 1733 por tropas coloniais, cujo destino permanece uma lacuna na memória oficial. Reconhecer essas camadas de história é o que diferencia um viajante consciente de um mero visitante.

O Modelo Regenerativo: Conservação e Desenvolvimento Local

A proposta atual para a região supera o turismo de massa tradicional. Enquanto o sistema colonial focava na ocupação, o modelo atual busca a conservação do patrimônio. A infraestrutura de sinalização segue o padrão internacional de placas marrons, orientando o ciclista com segurança por comunidades que mantêm vivas as tradições dos antigos pousos.

  • Economia de Permanência: O cicloturista consome produtos locais e hospeda-se em pousadas familiares, valorizando o patrimônio imaterial.
  • Marco Jurídico: Nesse contexto, o PL 1280/2024 busca formalizar esse corredor como Monumento Nacional, garantindo segurança para investimentos futuros.
  • Educação Ambiental: O pedal permite a leitura da paisagem, desde as matas de araucária até os campos de cima da serra, preservados pela própria dificuldade de acesso do traçado histórico.

Ao integrar cicloturismo e história, o ciclista torna-se um agente ativo. A experiência deixa de ser apenas contemplativa para se tornar uma ferramenta de desenvolvimento regional sustentável.

Ciclistas pedalando na Rota dos Tropeiros com sinalização marrom de cicloturismo autoguiado no Parque Estadual Vila Velha, unidade de conservação nos Campos Gerais do Paraná. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur
Sinalização de cicloturismo autoguiado no Parque Estadual Vila Velha, unidade de conservação nos Campos Gerais do Paraná. Trecho emblemático e estratégico da Rota dos Tropeiros que exemplifica a conservação do patrimônio natural aliada ao desenvolvimento regional. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

Um caminho não é apenas terra batida; é o registro físico das decisões de uma época. Pedalar aqui é conhecer o Brasil em movimento.
Baseado na biografia crítica de Cristóvão Pereira de Abreu

Planejamento e Práticas de Conservação no Caminho

Preparar-se para esta jornada exige mais do que condicionamento físico — requer um olhar atento para a conservação do ambiente e da memória. Recomenda-se o uso de bicicletas tipo Gravel ou MTB, ideais para o cascalho e a terra batida que compõem a maior parte do percurso original.

Conforme o trabalho desenvolvido pela Lobi Ciclotur, a logística foca na capilaridade econômica. O ciclista não passa apenas pela rota-tronco, mas conhece rotas secundárias que levam a queijarias, vinícolas e sítios arqueológicos. O objetivo é que cada pedalada contribua para a manutenção da cultura tropeira de forma ética.

Conclusão: O Cicloturismo como Resgate da Memória

Percorrer a Rota dos Tropeiros é abraçar a complexidade histórica do Brasil. É reconhecer a capacidade logística de figuras como Cristóvão Pereira de Abreu sem ignorar as cicatrizes da colonização. Ao unir cicloturismo e história, transformamos um antigo corredor comercial em um laboratório de cidadania.

Grupo de tropeiros renascentes a cavalo e cicloturistas contemporâneos no Costão do Cambará, Campos de Cima da Serra (RS), com bandeira histórica e cão de companhia. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur
Tropeiros renascentes e cicloturistas contemporâneos reunidos no Costão do Cambará, Campos de Cima da Serra (RS), simbolizando a conexão entre história colonial e presente na Rota dos Tropeiros. Foto: Ivan Mendes © Lobi Ciclotur

O passado não está mais guardado apenas em arquivos, mas sim sob suas rodas. Prepare seu equipamento com expectativa, respeite o solo e faça parte desta história que ainda está sendo escrita. Acompanhe a tramitação final do PL 1280/2024 no Senado Federal — marco jurídico essencial para a consolidação plena da rota.

Status Atual: Tramitação Legislativa em Fase Final

Status atual (fevereiro/2026): o PL 1280/2024, que cria a Rota dos Tropeiros nos quatro estados do Sul e Sudeste, aguarda despacho no Senado Federal após aprovação conclusiva unânime nas comissões da Câmara dos Deputados (CTUR e CCJC). A sanção presidencial ocorrerá após aprovação final pelo Senado, momento em que o corredor histórico será oficialmente reconhecido como Monumento Nacional.

Enquanto avança a tramitação legislativa, a Lobi Ciclotur e a ARTECS continuam articulando os 51 municípios envolvidos, capacitando comunidades locais e desenvolvendo produtos turísticos autênticos que estarão prontos para receber os primeiros cicloturistas assim que o marco legal estiver plenamente vigente.